Reconfigurar estratégias é essencial para atrair jornalistas e o público com conteúdo relevante
Fragmentação de canais. Mudanças disruptivas nas rotinas de relacionamento com a imprensa. Desenho de campanhas de posicionamento impulsionadas pela revolução da tecnologia e pelo boom da inteligência artificial. Transformações profundas nos meios, formatos e formas de consumo de informação por uma sociedade circundada, 24 horas por dia, por conteúdo.
Nessa metamorfose ambulante do mercado que deságua na construção de um novo ambiente comunicacional, como os profissionais de relações públicas devem se posicionar?
A resposta para essa pergunta de 1 milhão de dólares – ou, mais propriamente, de US$ 114 bilhões, valor dos investimentos em relações públicas em 2024, segundo estimativa da Research and Markets – não é simples e nem parte de uma simples receita de bolo, mas meu palpite é de que suas pistas podem ser encontradas no uso de dados e da própria inovação a favor das agências.
Fato é que, com esses vetores unidos, temos um caminho para mais eficiência, mais análises estratégicas e para novas formas de atrair, engajar e convencer o público e os jornalistas na era em que a comunicação digital deixa de ser uma tendência para se tornar a força majoritária do mercado. Bem-vindos ao Data-driven PR.
Data-driven PR e suas raízes
Em um cenário onde a comunicação se torna cada vez mais fragmentada e as redações operam sob intensa pressão por relevância e engajamento, como chamar a atenção de jornalistas que, diariamente, recebem uma avalanche de releases e sugestões de pauta em suas mesas?
A abordagem conhecida como Data-driven PR ou Data PR surge, nesse contexto, como um recurso estratégico para a construção de narrativas sólidas, baseadas em evidências e com valor noticioso para os veículos.
A estratégia pode se apoiar em diferentes frentes. Uma delas parte do uso de dados primários e secundários para fundamentar estudos de mercado que, por sua vez, são fontes de pautas e de campanhas de mídias sociais mais alinhadas às expectativas do público e às necessidades da imprensa por conteúdo relevante e que, de fato, gera interesse.
A prática de utilizar bases de dados na construção de reportagens, naturalmente, já faz parte da comunicação desde sempre e, hoje, o jornalismo de dados é uma especialização fundamental dentro da mídia, utilizando estatísticas, relatórios e levantamentos para embasar matérias investigativas e aprofundadas.
Esse mesmo princípio pode ser aplicado no universo das relações públicas, possibilitando que empresas e marcas não apenas comuniquem seus diferenciais, mas também forneçam insumos concretos para a imprensa.
Estudos setoriais, pesquisas inéditas e levantamentos sobre tendências de mercado tornam-se ativos valiosos, despertando interesse genuíno das redações e ampliando a repercussão das estratégias de comunicação.
Ato contínuo, o uso estruturado de dados nas campanhas de PR não apenas melhora a capacidade de segmentação e direcionamento de mensagens, como também fortalece a credibilidade das marcas, uma vez que suas narrativas passam a ser respaldadas por informações verificáveis.
Essa abordagem se traduz em um impacto mais significativo na mídia, evitando conteúdos meramente institucionais e gerando pautas de interesse jornalístico.
Integração, conteúdo multiplataforma e o futuro que já chegou
E, além da produção de conteúdo baseada em dados, a integração entre PR, redes sociais e mídia tradicional se consolida como uma tendência essencial. Estratégias que combinam a veiculação de uma notícia na imprensa com a amplificação desse conteúdo nos canais digitais dos porta-vozes geram maior impacto e contribuem para o fortalecimento do personal branding de executivos que podem se colocar como guardiães de marca.
Nesse sentido, a pesquisa Journalism, media, and technology trends and predictions 2025 do Instituto Reuters aponta que o consumo de notícias está cada vez mais distribuído entre múltiplas plataformas, indicando um movimento crescente de convergência entre mídias sociais e jornalismo profissional, questão que pode se colocar como um desafio, mas também abrir oportunidades nesse novo ambiente informativo.
Daí a demanda para que as ações de PR estejam alinhadas a uma estratégia multicanal, potencializando os resultados da exposição midiática.
Finalmente, a tecnologia desempenha um papel determinante nesse cenário.
Ferramentas de inteligência artificial, por exemplo, já são amplamente utilizadas para análise preditiva, monitoramento de tendências e automação de processos no setor de comunicação. Se utilizada com ética, a IA pode, literalmente, aumentar a produtividade, desde que não se abra mão do crivo humano para a criação de pautas, ações e conteúdos relevantes.
Diante dessas mudanças, as agências e profissionais de PR têm duas opções: se ater às práticas tradicionais, correndo o risco de ficar para trás dentro de um mercado no qual o futuro já chegou, ou reformular sua abordagem, incorporando metodologias orientadas por dados e explorando novas possibilidades tecnológicas.
Mas essa segunda perspectiva só funciona quando não perdemos de vista fatores que jamais vão deixar de ser importantes, como a criatividade, a capacidade estratégica e a sensibilidade para enxergar aquilo que pode despertar interesse, dentro dos oceanos de informação (e de dados) que nos rodeiam.
*Juliana Garcia é jornalista, empreendedora e especialista em Relações Públicas e Marketing de Conteúdo, com mais de 16 anos de experiência no mercado, CEO e founder da IDEIACOMM