O que acontece quando a crise não é um acidente, mas uma estratégia?
Para a maioria dos profissionais de comunicação, a gestão de crise é sobre mitigar danos e restaurar a estabilidade. Nos preparamos para sair das crises o mais rápido possível e com o menor impacto. Mas, e quando as crises são usadas como estratégia de negócio, não como um fato aleatório, como devemos agir?
A trajetória do presidente norte-americano Donald Trump — nos negócios e na política — nos ensina uma lição: o caos pode ser um ativo. Ele não reage a crises; ele as cria e as utiliza para dominar a narrativa. Essa é a tática do “caos calculado”. Trump sabe que a atenção da mídia é poder. Ele usa isso desde sempre — no filme “O Aprendiz” isso fica bem claro. Ao fazer declarações polêmicas ou tomar atitudes que parecem erráticas, ele desvia o foco, mobiliza sua base e se mantém no centro do debate. Isso cria um ciclo vicioso onde, mesmo com notícias negativas, seu nome e suas ideias são onipresentes.
Crise também na política internacional
Essa forma de agir de Trump não é exclusiva de sua faceta empresarial, ela segue ativa na política externa dos Estados Unidos. O recente “tarifaço” aos produtos brasileiros, por exemplo, segue à risca esse padrão já usado com outros países. É uma jogada que gera tensão comercial, garante manchetes, posiciona os EUA como uma força inquestionável e, ao mesmo tempo, busca fragilizar o Brasil.
Trump busca gerar uma crise por aqui para alcançar seus objetivos — que não parecem ser meramente econômicos. Ele entrou no jogo com o discurso forte, cumpriu a promessa, mas minimizou o tarifaço, reduzindo o impacto econômico, especialmente no seu próprio país. Ele gosta de crise, mas na casa dos outros, não na sua. E ainda coloca os demais países em silêncio por conta do receio de ser a “próxima vítima”.
E nós, comunicadores, o que podemos fazer?
Para gestores de comunicação, essa não é apenas uma questão econômica, mas uma situação que exige uma nova abordagem. Quando o adversário cria a própria crise como jogada de negócios, o manual tradicional, focado em estabilidade, precisa ser revisto. Para a grande maioria das empresas, o foco precisa estar em como reagir usando a comunicação a seu favor. Não contra Trump, mas mostrando ao Brasil os impactos que as medidas dele têm em nossa economia — uma forma de trazer o governo e a sociedade brasileira para o lado dos empresários.
Lembre-se que a gestão de crise precisa dar voz, rosto e dados para uma situação como essa. Esteja ao lado das lideranças para que elas usem a comunicação de forma positiva e intencional. Mais do que nunca, as empresas precisam dar voz a seus problemas, soluções e impactos na operação. Contra o caos, a comunicação constante, transparente e usada como forma de pressão pública podem ser excelentes estratégias.