A saúde mental dos profissionais de comunicação tem sido cada vez mais discutida, mas ainda é um tema que enfrenta barreiras dentro das agências e assessorias de imprensa. A pressão por resultados, a carga horária excessiva e a cultura de disponibilidade 24/7 são fatores que impactam diretamente o bem-estar dos trabalhadores do setor. Recentemente, uma planilha compartilhada no grupo Assessores de Imprensa trouxe depoimentos reais sobre depressão, assédio moral e esgotamento mental, jogando luz sobre um problema muitas vezes silenciado.
Alguns depoimentos:
- “Adquiri um quadro de ansiedade e depressão durante do trabalho em home office. Outros fatores pesaram também, mas hoje, depois de meses de antidepressivos e terapia, tenho certeza que um dos fatores para o quadro que apresentei foi esse, pois tendo que cuidar de afazeres domésticos, dos filhos e do trabalho, onde tive alguns momentos conturbados com clientes que atendi, com certeza agravou meu estado mental e emocional. Felizmente procurei tratamento a tempo, mas cheguei a temer pela minha integridade, em determinados momentos.”
- “Em uma agência onde trabalhei, começaram a cobrar metas de publicações semanais dos clientes, estimulando uma competição interna e sem sentido entre os assessores.”
- “Trabalhei por 12 anos em um gabinete parlamentar e só depois de sair percebi que sofria assédio moral. Desenvolvi uma espécie de stress pós traumático por conta dessa experiência e acabei deixando de me desenvolver profissionalmente porque a gestora sempre frisava que eu não tinha capacidade ou trabalhava bem. Sempre fui uma pessoa a frente do jornalismo e sempre estudei inovações, ferramentas e tecnologias, mas elas nunca serviam para o mandato. Só depois que outras assessorias aplicavam é que ela aceitava inserir as plataformas. Somente na terapia que a psicóloga me explicou que era um ambiente tóxico e que, por isso, eu tenho síndrome de impostora, crises de ansiedade antes de reuniões ou em chamados da gerência que não estavam planejados. Até hoje faço tratamento e, mesmo tendo saído de lá há 3 anos, ainda me acho incapaz de gerenciar uma equipe.“
- “Com mais de 25 anos trabalhando em agências, já passei por algumas situações complicadas. Recentemente, em uma grande agência, eu precisava responder de imediato (mesmo) as mensagens do cliente. Cheguei a printar cobrança da diretora para responder mensagem tendo passado apenas 1 minuto que o cliente a havia enviado. Era tão absurda essa cobrança que comecei a levar o celular até para o banheiro. Detalhe: o celular e o whatsapp eram meus. Como em todas as agências, nenhuma fornece aparelho corporativo ou ajuda de custo por uso de equipamento pessoal para trabalho.”
- “Trabalhei da T** Comunicação, como atendimento da M***(cliente), e fui sexualmente assediada por um dos sócios. Ele dizia que eu parecia muito com uma ex dele e começou com “apenas” piadas, comentários e “carinhos”, como pegar na cintura ao dar bom dia, fazer “massagem” durante o dia, enfim. isso me incomodou muito e eu pedi para parar, não adiantou. Ele, para mostrar poder, pegou todos os meus dados com o RH – porque não fazia parte da equipe que eu trabalhava – e usava eles para mostrar que sabia tudo sobre mim. Dizia que conhecia a rua onde morava, que tinha meu telefone anotado, viu viagens que eu fiz enfim. Quando fiz uma reclamação formal ao dono da agência, ele passou a me assediar moralmente também: enquanto eu estava em ligação com o cliente ou jornalista, ele aparecia na minha mesa e ficava comentando alto como o que eu estava fazendo era errado, ele conversava com a minha chefe sobre coisas que ela devia me cobrar, não me deixava falar em reuniões internas. Além disso, ele me perseguia dentro e fora do escritório, indo atrás de mim quando eu ia ao banheiro, pegar água ou almoçar na copa, além de andar atrás de mim na rua, na hora do almoço ou da saída. Eu já não ficava sozinha na agência e sempre tinha que ir acompanha embora até o metrô. Em mais uma reclamação formal que fiz, o dono da agência (T***), me chamou na sala dele, disse que o dito cujo era como um filho para ele, que ele era muito mais importante que eu e que, se eu estivesse muito incomodada, deveria “pintar o cabelo de loiro” para que não me parecesse tanto mais com a ex do infeliz. Eu chorava todos os dias, mas precisava do trabalho porque tinha acabado de ir morar com meu hoje marido. Quando consegui outro trabalho, pedi demissão no mesmo momento e, antes de sair do escritório, esse cara me encurralou no bebedouro, falando um monte de atrocidades sobre mim e meu trabalho, e eu fiquei olhando para a janela, deixando a água cair, enfim. Foi uma experiência horrível e não tive apoio de ninguém, nem do dono, nem da minha chefe, nem do RH, nada. Deste dia em diante eu fiz o possível para trabalhar apenas em agências grandes.”
A partir de maio, as empresas terão a obrigação legal de adotar medidas para garantir a saúde mental de seus colaboradores. Com a revisão da NR-1 (Norma Regulamentadora n.º 1), todas as organizações deverão estabelecer diretrizes que protejam o bem-estar psicológico dos trabalhadores, uma vez que os transtornos mentais passam a ser reconhecidos como riscos ocupacionais.
O não cumprimento dessas exigências pode resultar em penalizações financeiras consideráveis. Durante fiscalizações, auditores do trabalho podem identificar falhas e encaminhar os casos ao Ministério Público do Trabalho (MPT), que tem o poder de ajuizar ações civis públicas contra empresas infratoras. Além disso, os próprios profissionais podem denunciar diretamente ao MPT, e, na maioria dos casos, essas denúncias resultam em investigações formais, dado o peso do tema.
O problema do estresse e do esgotamento mental nas assessorias de imprensa e agências de PR também foi evidenciado pelo estudo “Panorama do Estresse e Saúde Mental em Assessoria de Imprensa / PR”, realizado pela Escola de Comunicadores, de Diego Pudo. O levantamento, que contou com 550 profissionais do setor, revelou dados preocupantes:
Níveis de estresse no trabalho:
- 58,2% dos entrevistados já consideraram deixar a área devido ao burnout nos últimos 24 meses.
- 53,6% já abandonaram empregos ou negócios anteriores pelo mesmo motivo.
- 44,6% avaliaram seu nível de estresse como 8 ou mais em uma escala de 1 a 10.
- 24,5% relataram sentir estresse diariamente no trabalho.
Principais fatores de estresse:
- Pressão por resultados imediatos (66,4%).
- Expectativa de disponibilidade constante (50,9%).
- Ambiguidade de funções (41,8%).
- Acúmulo de trabalho (42,7%).
Percepção de suporte e recursos:
- Apenas 20% dos empregadores oferecem serviços de apoio à saúde mental.
- Somente 15,5% dos entrevistados acreditam que receberiam suporte considerável da liderança em momentos de dificuldades mentais.
- 52,7% afirmam que o estresse reduz significativamente sua produtividade.
- Apenas 11,8% recebem feedback construtivo mensalmente.
- 17,3% relatam que raramente ou nunca recebem feedback.
Esses dados reforçam a necessidade urgente de abrir espaço para o debate sobre saúde mental dentro do mercado de assessoria de imprensa e comunicação. À medida que as exigências legais se tornam mais rigorosas, as agências e empresas precisam rever suas políticas internas e priorizar o bem-estar de seus colaboradores. Mais do que uma questão de conformidade, garantir a saúde psicológica das equipes é essencial para a sustentabilidade do setor. Em 2025, essa pauta precisa estar no centro das estratégias empresariais e de gestão de pessoas.
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